Primeiro abrigo do Brasil para refugiados LGBTI acolhe venezuelanas em Manaus

 

MANAUS, 06 de novembro de 2018 (ACNUR) - Em uma casa simples de quatro cômodos localizada na zona central de Manaus, Yelitza* é sempre a primeira a acordar e prepara o café da manhã para as outras cinco mulheres que dividem o mesmo teto com ela.

 

Após o desjejum matinal, as seis moradoras reúnem seus apetrechos e partem para mais um dia de trabalho nas ruas da capital amazonense, onde vendem água mineral e “dindin”, um doce congelado de diferentes sabores que lembra um picolé. Ao final da tarde, todas retornam à casa para comer, descansar, jogar conversa fora e se preparar para o próximo dia.

 

Esta rotina simples, que  lembra o cotidiano de muitos lares brasileiros, é um grande avanço na vida de Yelitza e suas amigas, venezuelanas que vivem na Casa Miga, o primeiro abrigo para refugiados LGBTI do Brasil. O abrigo é coordenado pela ONG Manifesta LGBTI +, com o apoio do ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) e parceiros. O grupo é composto por dois casais e duas solteiras.

 

Forçadas a deixar seu país devido à insegurança, violência e dificuldades sócio-econômicas, estas seis mulheres venezuelanas chegaram ao Brasil no início deste ano e se estabeleceram inicialmente em Boa Vista (capital do Estado de Roraima).

 

Nem todas se conheciam da Venezuela, mas rapidamente formaram um grupo coeso na praça onde coincidentemente se instalaram – e onde viveram por três meses antes de serem encaminhadas a um dos abrigos públicos para solicitantes de refúgio e migrantes vindos da Venezuela, mantidos pelo governo federal.

 

“Na Venezuela, não nos sentíamos protegidas. Havia muito preconceito e não podíamos contar com ajuda em agressões preconceituosas ou xingamentos. No Brasil, ouvimos da própria polícia uma palestra sobre a lei de combate à violência contra mulheres e sabemos que existem políticas públicas de saúde para a população LGBTI”, afirma Gabriela*, uma das mais falantes do grupo.

 

Ainda em Boa Vista, no abrigo para o qual foram levadas, foram informadas sobre o processo de interiorização, implementado pelo governo federal com o apoio do ACNUR e de outras agências da ONU para realocar venezuelanos em outras cidades do país com melhores perspectivas de integração. E optaram por Manaus.

 

Ao chegarem na capital amazonense à bordo de um avião da Força Aérea Brasileira, o grupo foi alojado em um dos abrigos públicos da cidade. Mas esta ainda não seria uma solução para elas, que passaram a ser discriminadas por outros venezuelanos no local.

 

“Diziam que éramos um mal exemplo para as crianças e as famílias. Assim, pedimos ao ACNUR para sair de lá”, conta Yasmira*, uma das moradoras da Casa Miga. “Temíamos criar algum conflito com os demais abrigados e queríamos um lugar onde pudéssemos nos sentir bem”, completa.

 

A opção da Casa Miga foi então considerada, uma vez que a ONG Manifesta é conhecida em Manaus por promover os direitos da população LGBTI na esfera municipal e estadual e abrigar jovens de Manaus expulsos de casa por causa de sua orientação sexual e de gênero.

 

“Com o apoio de nossos parcerios, já tinhamos alugado o espaço. E com um financiamento colaborativo e doações pontuais, inauguramos a Casa Miga e oferecemos as vagas para este grupo especial”, conta Gabriel Mota, fundador e presidente da ONG.

 

Por meio de um projeto financiado pela União Europeia por meio do seu Instrumento de Contribuição para a Estabilidade e a Paz (IcSP), o ACNUR apoiou a montagem do abrigo doando cama, colchões, ventiladores, máquina de lavar roupa e uma televisão. Entre seus objetivos, o IcSP visa melhorar o ambiente de proteção para venezuelanos no Brasil e contribuir para uma convivência mais pacífica desta população nas cidades de acolhida.





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