JESUÍTAS: "Os refugiados são diferentes, são muitos e vêm para o nosso sítio"



POR NUNO PINTO FERNANDES

O padre americano Tom Smolich é desde 2015 diretor mundial do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS, na sigla em inglês) e o espanhol José Ignacio García o responsável do JRS para a Europa, articulando a ação de 15 escritórios, entre eles o português. A dupla de sacerdotes jesuítas esteve em Portugal e conversou com o DN sobre o JRS, que auxilia mais de 700 mil pessoas mundo fora, a questão dos refugiados e migrantes e ainda sobre o Papa Francisco, que conhecem bem.

 

Há muitos anos que lida com refugiados, até em África. Como é que vê a situação dos refugiados na Europa, toda esta gente que vem do Norte de África e do Médio Oriente e que tenta alcançar uma espécie de El Dorado?

 

José Ignacio García: Tenho de fazer uma distinção rápida. A Europa tem sido um lugar de asilo desde há muitos anos; as pessoas que procuravam um lugar seguro vinham para a Europa em busca de oportunidades e proteção; uma das alturas em que o medo era maior foi depois da Segunda Guerra Mundial e as pessoas vinham para este lado da Europa em busca de proteção, por isso penso que isso é algo que se manteve profundamente dentro do coração europeu. Depois houve outro fenómeno de migração, muita gente à procura de trabalho que vem para a Europa, e penso que em geral tem havido abertura para as receber, até porque precisamos destas pessoas para manter a atividade económica. Mas a integração não é sempre fácil, especialmente em países com crises económicas e que, de repente, se veem com demasiadas pessoas no mercado de trabalho. E, depois, vem a crise na Síria e há todos os muçulmanos a virem, também do Afeganistão, do Iraque e outros, o grande fluxo de 2014/2016. Penso que houve uma espécie de medo da parte de algumas instituições e países europeus de não conseguirem lidar com as dificuldades de gerir tudo isto. A reação foi muito dura: fechar as fronteiras, impedir as pessoas de virem, pará-las na Grécia e na Turquia. Penso que temos de recuperar um pouco do espírito da Europa, de proteger as pessoas e depois ter uma perspetiva a longo prazo de como podemos lidar com a migração.

 

Alguns países do Leste disseram mesmo que receberiam refugiados se fossem cristãos do Médio Oriente, mas não se fossem muçulmanos. Pensa que existe um medo particular devido ao facto de muitos dos refugiados virem de países muçulmanos?

 

José Ignacio García: Penso que quando chega a hora de decidir procura-se sempre qualquer diferença que permita justificar a decisão tomada. Neste caso é a religião, mas o facto é que eles são diferentes, são muitos e vêm para o nosso sítio. Mas é como o Papa Francisco diz: isto não é uma questão religiosa, não é por eles serem muçulmanos e nós cristãos. É por serem muitos, por virem nesta altura e nós não sabermos como lidar com este processo, portanto, usam-se desculpas para justificar o facto de não querermos cuidar deles. Há um sistema internacional em que nós estamos envolvidos como países europeus em que nos comprometemos a proteger as pessoas quando elas estão em dificuldades e esta é uma maneira internacional de viver. Penso que é isso que está realmente em jogo.

 

Sei que agora está a viver em Roma, mas sendo americano diga-me como é que vê este problema dos refugiados a partir da América. É só europeu ou é verdadeiramente global?

 

Tom Smolich: A questão da migração forçada que é a dos refugiados e a dos deslocados é um problema global. Há 65 milhões de pessoas que foram obrigadas a deixar as suas casas em todo o mundo, todos os anos há dez milhões de pessoas que são obrigadas a deixar as suas casas. Há algum tempo havia as que conseguiam regressar relativamente depressa mas, atualmente, a duração média do tempo que alguém passa naquilo a que se chama uma situação protegida é superior a 17 anos. Assim o nosso sistema que tem cuidado de pessoas que precisam de proteção, que precisam de asilo, não espelha a realidade das situações. No passado as pessoas conseguiam com frequência regressar e reinstalar-se, mas agora o sistema está com dificuldade em lidar com um fenómeno que é global. Penso que nos Estados Unidos, mais do que na Europa, a realidade dos refugiados em migração está um pouco estabilizada, não vemos um grande aumento no número de refugiados que tentam vir. A pressão migratória esteve sempre presente, na verdade nós somos um país de imigrantes, há sempre um fluxo fixo de pessoas a entrarem porque há sempre trabalho. Se olharmos para a nossa história vemos que tivemos os nossos altos e baixos em termos de receber bem as pessoas, pode-se olhar para as políticas do presidente Donald Trump como um fenómeno extraordinário mas, na realidade, ele segue uma longa linha bastante consistente de reações. Certamente que, desta vez, muito disto se deve a receios de ordem económica, penso que o Sr. Trump e alguns dos seus partidários estão a tentar argumentar que a perda de empregos e as perturbações na nossa economia são devidas ao facto de as pessoas virem para cá, o que provavelmente não é verdade. A maioria dos economistas diria que a maior parte dos empregos perdidos se deve mais à automação do que ao outsourcing do trabalho ou à apropriação dos empregos pelos imigrantes. Uma das coisas mais interessantes na questão da globalização é que os benefícios aplicam-se a milhões, todos recebemos benefícios, mas o lado negativo é sentido de uma forma severa por algumas pessoas e penso que neste momento, nos Estados Unidos, a base de apoio do Sr. Trump é constituída por pessoas que sentem severamente os problemas de todo este processo de globalização. Portanto, as dificuldades que a Europa está a ter com esta questão, nós vivemo-las à nossa maneira: a perseguição inicial aos muçulmanos e as declarações sobre os refugiados a serem substituídas por declarações sobre problemas com base na segurança.

 

A América tem esta tradição de ser nativista de uma forma cíclica. Olhando para Trump, isto tem mais a ver com muçulmanos ou com mexicanos e imigrantes da América Central?

 

Tom Smolich: É assim: se o seu problema tem a ver com muçulmanos então ele é contra os muçulmanos, se o seu problema tem a ver com pessoas de pele escura da fronteira a Sul então ele é contra pessoas de pele escura da fronteira do Sul. Acho que temos de compreender a personificação dele, que tende a ser reativa a quem você é, por isso não há aqui uma política consistente de momento. Seria muito diferente se existisse uma política muito estruturada em termos de tentarmos lidar com este problema. Na verdade, a questão dos refugiados é muito mais sobre se cortamos ou não os números. Há pessoas que fazem parte do seu governo que argumentam que devemos manter o número de refugiados em aberto; estamos a falar da diferença entre 50 000 e 100 000 pessoas, o que num país de 350 milhões de pessoas é uma gota no oceano.

 

Mas é só Trump ou também o Partido Republicano?

 

Tom Smolich: Mais uma vez, são partes do Partido Republicano, que é feito de vários grupos diferentes, como os Republicanos de Wall Street que preferem ter as fronteiras abertas até certo ponto e ter o fluxo de pessoas a entrar para trabalhar; há os libertários que dizem que toda a gente tem direito a uma oportunidade e que desde que cumpram a lei são bem-vindos; depois há os nativistas, que apoiam Trump.

 

É possível dizer que existe uma diferença entre americanos em geral e americanos católicos em termos de atitude em relação aos refugiados?

 

Tom Smolich: Deixe-me voltar a uma questão: um exemplo específico de tudo isto é o DACA, o programa para as crianças que foram trazidas para os EUA e que não violaram nenhuma lei. Donald Trump acabou com o programa, está a tentar trabalhar com os Democratas para conseguir fazer passar alguma coisa, porque há demasiado medo no seu próprio partido para fazer passar as decisões. O procurador-geral já avisou os beneficiários do programa para que estivessem preparados para partir. Se houvesse uma política consistente estaríamos a ter agora uma conversa muito diferente mas, neste momento, é uma atuação principalmente reativa, dizer que se está a passar alguma coisa de consistente é faltar à verdade. A Igreja Católica é historicamente uma igreja imigrante, portanto penso que se olharmos para as atitudes católicas em relação aos refugiados e imigrantes pode depender do local do país em que se está mas, como um todo, é mais aberta aos refugiados, mais aberta aos imigrantes.

 

Como é que avalia a reação de refugiados muçulmanos, alguns deles nunca tendo qualquer contacto com cristãos antes de chegarem à Europa, ao receberem ajuda dos jesuítas?

 

José Ignacio García: Nós trabalhamos em África, na América Latina e na Europa há muitos, muitos anos, mais de 50 anos e, agora, temos a oportunidade de trabalhar também na Jordânia. Houve pessoas que disseram para não irmos para lá, que era um país muçulmano e que iria ser difícil. Bom, trabalhamos na Jordânia e as pessoas aceitam e temos estado lá desde que começou a crise na Síria. Hoje temos de dizer que ainda bem que fomos para a Jordânia porque isso permite-nos trabalhar na Síria e em toda a região sem problemas, 70% das pessoas que estamos a ajudar são muçulmanos. Nas nossas equipas no Médio Oriente não se consegue distinguir quem é muçulmano e quem é cristão, eles trabalham em conjunto e, nesse sentido não há qualquer preconceito do nosso lado e também não sinto qualquer resistência seja de quem for. Na Europa penso que para nós, como cristãos, como crentes, é desafiante porque os europeus estão com uma tendência para a laicidade nos seus países, existe a separação da Igreja e do Estado e, principalmente nos últimos 25 anos, a religião tem reduzido a sua presença na esfera pública, é como se fossem pessoas a fazer coisas estranhas num canto da sociedade, as coisas importantes são o desporto, a política, etc. Acho que muitas das comunidades muçulmanas ou os recém-chegados são verdadeiros crentes, praticam a sua fé em comunidades e é preciso que a sociedade respeite a fé deles.

 

A condição de sul-americano e jesuíta do Papa explica a sua atitude para com os refugiados?

Tom Smolich: Eu quero ser cauteloso ao definir aqui o Papa Francisco e dizer que por ser argentino e jesuíta é aquilo que é. Deixe-me refazer um pouco a pergunta: penso que a maior graça que o Papa Francisco traz é ser fundamentalmente um pastor, é ser uma pessoa pastoral. Quando conhece alguém, envolve-se com a pessoa como é, com a sua situação, seja ela qual for. Agora, o facto de ele ser da Argentina dá-lhe os seus antecedentes e o facto de ser jesuíta, com a nossa espiritualidade particular, que diz que encontramos Deus em todas as coisas e que Deus está ativo nesta conversa que estamos a ter, também faz parte deles. Mas penso que estamos a falar principalmente de uma pessoa que tem uma capacidade imensa de se envolver com a pessoa com quem está a falar. Isso é uma graça, é uma graça assente na sua natureza, e é por isso que quando ele diz o que diz tem um poder enorme.

José Ignacio García: Nós temos de ser justos nesta descrição. Ele tem uma origem imigrante, a Argentina é uma sociedade especial com muito sofrimento mas com muitas capacidades, é uma sociedade muito viva; é um jesuíta, o que lhe deu um treino especial, foi arcebispo de Buenos Aires o que foi fundamental porque isso fez dele um pastor, há muitas maneiras de se ser arcebispo e eu acho que ele escolheu uma que foi estar com as pessoas, lidar diretamente com as comunidades e isso deu-lhe uma compreensão diferente da variedade da Igreja. Assim, naturalmente que o facto de ser jesuíta e Papa nos permite compreender melhor o que ele sente e a compreensão que ele tem da Fé, que não é apenas para o bem-estar do indivíduo, crer não é apenas celebrar dentro da comunidade, mas uma forma de compreender a vida e de descobrir maneiras de entregar as nossas vidas, de nos entregarmos, pelo bem dos outros. Por isso acho que ele faz a diferença, ajuda-nos a compreender como sermos cristãos no mundo atual e ajuda a Igreja a entender qual é o seu lugar nesta sociedade. Ele não está num lugar de poder, não está num lugar de prestígio, está num lugar em que está ao serviço dos outros, a Igreja é isso.

 

Tom Smolich: É um lugar de envolvimento. A sua ideia de Igreja é a de envolvimento. Uma das imagens que ele nos dá é a da Igreja como um hospital de campanha: acolhemos as pessoas e preocupamo-nos com as suas feridas até que deixem de sangrar. Penso que ele vê o mundo, especialmente o dos migrantes, como um mundo em que há muito sangramento.

Fonte: DN





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