Em missa no Vaticano, Francisco clama ao mundo compaixão pelos imigrantes




POR ROSINHA MARTINS

DE SANTO ANDRÉ – SP

 

08.07.2019| Uma Celebração Eucarística presidida pelo Papa Francisco, no Vaticano, na manhã desta segunda, 8, chamou a atenção do mundo. Francisco rezou pelos imigrantes, comemorando o 6º aniversário de sua visita a Lampedusa que aconteceu em 8 de julho de 2013, quando um naufrágio no mediterrâneo levou à morte centenas de imigrantes. Foi a sua primeira viagem apostólica.

"É uma grande responsabilidade, da qual ninguém pode ficar isento se quisermos cumprir a missão de salvação e libertação a qual o próprio Senhor nos chamou a colaborar", disse Francisco aos cerca de 250 convidados, entre eles, imigrantes e instituições que trabalham por essa causa. 

Sem mencionar diretamente os conflitos em torno da acolhida às pessoas em situação de migração e refúgio, que tem atingido países da Europa, nos últimos dias, inclusive a Itália, como também, o caso da capitã Carola Rackete, presa por resgatar pessoas no mediterrâneo, Francisco se mostrou sensível e preocupado com os imigrantes. “Penso nos 'últimos' que clamam ao Senhor todos os dias, pedindo para serem libertados dos males que os afligem", declarou. 

"Eles são os últimos enganados e abandonados para morrer no deserto; são os últimos torturados, maltratados e violados em campos de detenção; são os últimos a desafiar as ondas de um mar implacável; são os últimos deixados em campos de uma acolhida que é muito longa para ser chamada de temporária", lamentou o papa.

08 de julho: memória do bem-aventurado João Batista Scalabrini, denominado  'pai dos migrantes'



A data coincide, também, com a celebração do aniversário do Beato Scalabrini, fundador das Congregações masculina e feminina dos Missionários e Missionárias de São Carlos Borromeo que têm como missão o serviço evangélico e missionário às pessoas em situação de migração e refúgio. João Batista Scalabrini nasceu em Piacenza, Itália, a 8 de julho de 1839. Todo o seu episcopado foi dedicado à causa da acolhida, proteção, promoção e integração dos imigrantes italianos que deixavam o país em busca da sobrevivência. Uma de suas premissas era de que  "para o migrante a pátria é a terra que lhe dá o pão". 


Presente na Celebração, juntamente com outras irmãs, a superiora geral das Scalabrinianas, Irmã Neusa de Fátima Mariano relatou que além de poder cumprimentar o Papa Francisco, pode perceber o clima de solidariedade e compaixão que perpassava o momento. “Os imigrantes foram convidados pelo Papa Francisco a ocuparem os primeiros lugares durante a missa. Podíamos ver estampada no rosto do Papa uma grande emoção e, também, por parte dos imigrantes (de várias nacionalidades) que ali estavam presentes”, contou.  

Veja a íntegra da homilia do Papa

 


Hoje, a Palavra de Deus fala-nos de salvação e libertação.

Salvação. Durante a sua viagem de Bersabé para Harã, Jacob decide parar e descansar num lugar solitário. Em sonho, vê uma escada cujo pé assenta na terra e o topo toca o céu (cf. Gn 28, 10-22a). A escada, pela qual sobem e descem os anjos de Deus, representa a ligação entre o divino e o humano, que se realiza historicamente na encarnação de Cristo (cf. Jo 1, 51), amorosa oferta de revelação e salvação por parte do Pai. A escada é alegoria da iniciativa divina que antecede todo e qualquer movimento humano. É a antítese da torre de Babel, construída pelos homens que queriam, com as suas forças, chegar ao céu para se tornarem deuses. Neste caso, ao contrário, é Deus que «desce», é o Senhor que Se revela, é Deus que salva. E o Emanuel, o Deus-connosco, realiza a promessa de pertença mútua entre o Senhor e a humanidade, no sinal dum amor encarnado e misericordioso que dá a vida em abundância.

À vista desta revelação, Jacob realiza um ato de entrega ao Senhor, que se traduz num compromisso de reconhecimento e adoração que marca um momento essencial na história da salvação. Pede ao Senhor que o proteja ao longo do caminho difícil que está a fazer e diz: «O Senhor será o meu Deus» (Gn 28, 21).

Dando eco às palavras do Patriarca, repetimos no Salmo: «Meu Deus, em Vós confio». Ele é o nosso refúgio e nossa fortaleza, escudo e couraça, âncora nos momentos de prova. O Senhor é abrigo para os fiéis que O invocam na tribulação. Aliás, é precisamente nestes momentos que a nossa oração se torna mais pura, isto é, quando nos damos conta de que as certezas oferecidas pelo mundo pouco valem, e nada mais nos resta senão Deus: só Deus abre de par em par o Céu a quem vive na terra; só Deus salva.

E esta entrega total e extrema é precisamente o elemento comum entre o chefe da sinagoga e a mulher hemorroíssa, no Evangelho (cf. Mt 9, 18-26). São episódios de libertação. Ambos se aproximam de Jesus para obter d’Ele o que mais ninguém lhes pode dar: libertação da doença e da morte. Dum lado, temos a filha duma das autoridades da cidade; do outro, uma mulher atribulada por uma doença que faz dela uma excluída, uma marginalizada, uma pessoa impura. Mas Jesus não faz distinções: a libertação é concedida generosamente em ambos os casos. A necessidade coloca a ambas – a mulher e a menina – entre os «últimos» que devemos amar e levantar.

Jesus revela aos seus discípulos a necessidade duma opção preferencial pelos últimos, que hão de ocupar o primeiro lugar no exercício da caridade. São tantas as pobrezas de hoje! Como escreveu São João Paulo II, «“pobres”, nas várias acepções da pobreza, são os oprimidos, os marginalizados, os idosos, os doentes, as crianças, todos aqueles que são considerados e tratados como “últimos” na sociedade» (Exort. ap. Vita consecrata, 82).


Neste sexto aniversário da visita a Lampedusa, penso nos «últimos» que diariamente clamam ao Senhor, pedindo para ser libertados dos males que os afligem. São os últimos enganados e abandonados a morrer no deserto; são os últimos torturados, abusados e violentados nos campos de detenção; são os últimos que desafiam as ondas dum mar impiedoso; são os últimos deixados em acampamentos de acolhimento (demasiado longo, para ser chamado de temporário). Estes são apenas alguns dos últimos que Jesus nos pede para amar e levantar. Infelizmente, as periferias existenciais das nossas cidades estão densamente povoadas de pessoas que foram descartadas, marginalizadas, oprimidas, discriminadas, abusadas, exploradas, abandonadas, de pessoas pobres e sofredoras. 


No espírito das Bem-aventuranças, somos chamados a acudir misericordiosamente às suas aflições; saciar a sua fome e sede de justiça; fazer-lhes sentir a solícita paternidade de Deus; mostrar-lhes o caminho para o Reino dos Céus. São pessoas; não se trata apenas de questões sociais ou migratórias! «Não se trata apenas de migrantes!», no duplo sentido de que os migrantes são, antes de mais nada, pessoas humanas e que, hoje, são o símbolo de todos os descartados da sociedade globalizada.

Retorna espontaneamente à mente a imagem da escada de Jacob. Em Jesus Cristo, está assegurada e é acessível a todos a ligação entre a terra e o Céu. Mas subir os degraus desta escada requer empenho, esforço e graça. Os mais frágeis e vulneráveis devem ser ajudados. Apraz-me pensar que poderíamos ser, nós, aqueles anjos que sobem e descem, pegando ao colo os pequenos, os coxos, os doentes, os excluídos: os últimos, que caso contrário ficariam para trás e veriam apenas as misérias da terra, sem vislumbrar já desde agora algum clarão do Céu.

Trata-se, irmãos e irmãs, duma grande responsabilidade, da qual ninguém se pode eximir, se quiser levar a cabo a missão de salvação e libertação na qual fomos chamados a colaborar pelo próprio Senhor. Sei que muitos de vós, chegados apenas há alguns meses, já estais a ajudar irmãos e irmãs que chegaram depois. Quero agradecer-vos por este estupendo sinal de humanidade, gratidão e solidariedade.








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