A ligação umbilical entre os refugiados e as políticas econômicas de seus países

A ligação umbilical entre os refugiados e as políticas econômicas de seus países. Entrevista especial com Alfredo Gonçalves


Entre os vários fatores que explicam o crescente fenômeno migratório na Europa, um deles é a “estridente assimetria entre os países e regiões centrais e os países e regiões periféricos”, isto é, “a mobilidade humana encontra-se umbilicalmente ligada à política econômica de cada país e de todo o globo”, pontua Alfredo Gonçalves,Vigário Geral da Congregação dos Missionários de São Carlos - CS, assessor das Pastorais Sociais, que tem acompanhado esse processo em Roma, de onde concedeu, por e-mail, a entrevista a seguir à IHU On-Line.

Segundo ele, a população que desembarca na Europa vem em “grande maioria” de países africanos, do Oriente Médio e em menor escala da Ásia. “No corredor entre Europa e África, em vez, o que está em jogo são os países pobres deste último continente. Em vários deles impera a ‘limpeza’ étnica, religiosa ou ideológica, como no Sudão do Sul. Em outros, é a disputa pelo poder que gera lutas fratricidas, como na Nigéria e Chade. Semelhantes conflitos provocam a morte dos que são obrigados a combater, ou a fuga em direção ao norte, às margens do Mediterrâneo. (...) Além disso, grande parte desses países vê-se repetidamente assolada pela seca ou pela inundação, seguida da fome, como a Etiópia, Somália e a Eritreia, por exemplo, no chamado corno da África, e ainda Burkina Faso, Chade, Mali, Senegal. (...) Todos fogem a um destino trágico, seja a perseguição política, a prisão ou execução pura e simples, seja a morte a conta-gotas e aos olhos da própria família, devido às condições precárias em que vivem”, resume.

 

Na avaliação de Gonçalves, os diversos países que formam o continente europeu assumem uma “posição diversificada” e “contraditória” em relação às possibilidades de oferecer respostas ao fenômeno migratório. “A última cúpula da União Europeia - UE, formada por 18 países, foi realizada nos dias 28 e 29 de junho passado. O que se vê é um jogo de empurra-empurra, como se os migrantes representassem uma ‘batata quente’. As autoridades sentem-se duplamente pressionadas: de um lado, por boa parte de sua população que não aceita a vizinhança dos migrantes; de outro lado, pelo acordo de Berlim, de 2017, segundo o qual havia a promessa de estabelecer um regime de quotas para cada nação. Entretanto, Hungria, Áustria, Polônia e Holanda, entre outros países, não querem saber de um único imigrante. Outros dizem sim, seguido porém de um ‘mas’ ou ‘se’, de um ‘poderia’ ou ‘vamos ver’, de um ‘seria’ ou ‘depende’ e assim por diante”, informa.

Segundo Gonçalves, que acompanha de perto o trabalho desenvolvido pela Pastoral dos Migrantes, “a maior preocupação da Pastoral dos Migrantes hoje se resume ao seguinte desafio: como passar da assistência imediata (social, jurídica, espiritual) a uma verdadeira inserção no lugar de destino”, conclui.

Alfredo Gonçalves foi ordenado sacerdote scalabriniano em 1984. Entre 1994 a 1997, trabalhou na Paraíba com os cortadores de cana-de-açúcar ligados à Pastoral dos Migrantes. De 1998 a 2003, trabalhou como assessor do Setor Pastoral Social da Conferência Episcopal (CNBB), no qual se incluía a Pastoral dos Migrantes. Em 2003 atuou nas fronteiras da Argentina, Brasil e Paraguai, como pároco pessoal dos imigrantes na Diocese de Ciudad del Este. Em 2007 foi superior Provincial da Província São Paulo e atualmente é Vigário Geral da Congregação dos Missionários de São Carlos desde 2012.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como o senhor compreende o fenômeno da imigração e dos refugiados nos dias de hoje, a partir do que tem observado em Roma?

 

Alfredo Gonçalves - Permitam-me iniciar com uma espécie de “minuto de silêncio” pelos 1.405 imigrantes que, de janeiro até o início de julho de 2018, perderam sua vida nas águas do Mediterrâneo. Sem nome e sem rosto, para sempre sepultados no anonimato do fundo do mar e para sempre separados da família. Sonhos se transformam em pesadelos, esperança viram tragédia. De acordo com o jornal Corriere della Sera (04/07/18), nos últimos meses cerca de 9% dos que embarcam no norte da África morrem afogados na travessia. Seria evidentemente um exagero chamá-los de mártires da migração. Talvez o sejam, porém, de uma economia globalizada que “exclui, descarta e mata”, para ater-se às palavras do papa Francisco.

 

Quanto à imigração atual dos refugiados, o fenômeno se deve, entre outros fatores, à estridente assimetria entre os países e regiões centrais e os países e regiões periféricos. A Doutrina Social da Igreja - DSI, de modo particular na Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes (1965), e na Carta Encíclica Populorum Progressio (1967), ambas publicadas pelas mãos do então papa Paulo VI, repito, a DSI sempre bateu nessa tecla. O progresso técnico e o crescimento econômico, por si sós, não levam ao desenvolvimento integral e à paz. Desenvolvimento e paz somente são possíveis onde o crescimento vem acompanhado de uma verdadeira e profunda distribuição da renda e da riqueza. “O desenvolvimento é o novo nome da paz”, diz a esse respeito um dos subtítulos da Populorum Progressio.

 

Mas tal assimetria é ainda mais gritante quando comparamos as nações do velho continente europeu com aquelas do novo continente africano. Com a revolução dos transportes e das comunicações, coisas e pessoas correm e voam a uma aceleração sem precedentes. Impressiona hoje a velocidade de deslocamento de mercadorias, dinheiro, tecnologia, notícias, conhecimento, informações, armas, drogas e violência – em alguns casos, basta um simples toque na tecla do computador. Com isso, os jovens em especial possuem diante dos olhos, do outro lado do deserto e do Mediterrâneo, um possível Eldorado de oportunidades. Acrescentam-se a isso os fatores que os levam à fuga em massa da própria terra natal, incluindo um certo senso de libertação em relação a sociedades tradicionais de rígido controle social.

 

IHU On-Line - O fenômeno da imigração se modificou ao longo dos últimos sete, oito anos? Em quais aspectos?

 

Alfredo Gonçalves - Desnecessário lembrar que a mobilidade humana encontra-se umbilicalmente ligada à política econômica de cada país e de todo o globo. Além de um fenômeno epocal e estrutural, os deslocamentos humanos de massa tornaram-se igualmente planetários. Daí sua relação com a geopolítica mundial. Nos últimos anos, assiste-se por todo lado uma guinada à direita (para não dizer à extrema  direita) em boa parte dos processos eleitorais mais recentes. Seria fácil citar, entre outros, Estados Unidos, França e Alemanha em parte, Inglaterra do Brexit, Áustria, Hungria, Polônia, Itália, Países escandinavos, República Checa, Eslovênia.

 

Esses governos, já durante a campanha eleitoral e mais ainda depois de eleitos, assumem uma política antimigratória declarada e ostensiva. O mais grave é que tal atitude costuma ser uma caixa de ressonância das respectivas populações, nas quais reina o medo, a ameaça e o rechaço ao outro, ao estrangeiro. Isso explica o crescimento bastante generalizado do preconceito e da discriminação, do racismo e da xenofobia. Exemplos mais evidentes disso são Donald Trump (EUA), Matteo Salvini (Itália) e Sebastian Kurz (Áustria), para limitarmo-nos a esses três casos.

 

Enquanto S. Kurz, no dia 5 de julho passado, acabou de reforçar o controle na fronteira entre Áustria e Itália, em Brennero, Matteo Salvini, por sua vez, um dia depois, em 06/07/18, enviou uma circular a todos os prefeitos, no sentido de restringir o direito de asilo aos imigrantes. E ontem, 9 de julho, levou à Suprema Corte Europeia a ideia de fechar os portos italianos a todos os navios internacionais. No que diz respeito ao Brasil (e não só), alguns países do velho continente já estudam a forma de dificultar a entrada de nossos concidadãos. Em termos globais, ao fecharem a porta da frente à imigração, isto é, a via legal e devidamente documentada, desencadeiam a corrida à porta dos fundos, ou seja, a via “ilegal” e sem os documentos em ordem. Disso resulta que os complexos fronteiriços acabam tornando o fenômeno migratório mais intenso e mais vivo, conferindo-lhes ao mesmo tempo maior visibilidade. Fronteiras como aquelas que simultaneamente unem e dividem a Turquia e a Grécia, o norte da África e o sul da Europa, o México e os EUA, Myanmar e Bangladesh, a ilha de Batan (Malásia) e Singapura, Chile, Peru e Bolívia, Venezuela, Colômbia e Brasil, Paraguai, Argentina e Brasil, entre outras – convertem-se em panelas de pressão prestes a explodir. Vulcões em estado de erupção.

 

IHU On-Line - Quais são as origens dos imigrantes que mudam para a Europa e quais são as causas dessas migrações?

 

Alfredo Gonçalves - A grande maioria se origina dos países da África, especialmente da região subsaariana; do Oriente Médio; e em menor escala da Ásia. Países como Síria, Afeganistão, Iraque (Oriente Médio); Líbia, Etiópia, Eritreia, Somália, Sudão, Senegal, Burkina Faso, Chade, Mali (África) figuram em primeiro plano. Mas se alargarmos a visão da mobilidade humana em geral, de outras nações como Índia, Sri Lanka, Filipinas, Myanmar e Indonésia (Ásia) saem milhares de pessoas, algumas das quais também chegam ao continente europeu.

 

As motivações repetem-se com uma frequência assustadora: primeiro, pobreza, miséria, fome, falta de emprego e de oportunidade; depois, violência, guerra, conflitos que podem ser étnicos, religiosos ou político-ideológicos; por fim, desastres naturais, não raro amplificados devido às progressivas mudanças ambientais. Escapam os jovens sobretudo, mas também as mulheres e, de forma crescente, as crianças desacompanhadas. E como já vimos, alguns escapam também em busca de maior autonomia e liberdade. Tais causas se misturam, se entrelaçam e se fundem. Por isso é que a tentativa de separar refugiados e prófugos, de um lado, e migrantes socioeconômicos, de outro, esteja condenada ao fracasso. Todos fogem a um destino trágico, seja a perseguição política, a prisão ou execução pura e simples, seja a morte a conta-gotas e aos olhos da própria família, devido às condições precárias em que vivem.

 

IHU On-Line - Que informações o senhor tem sobre os imigrantes que vêm da África do Sul? Qual é a situação deles e por que migram para a Europa?

 

Alfredo Gonçalves - Não exatamente da África do Sul, país que também é considerado um lugar de destino para muitos imigrantes das nações vizinhas (Botsuana, Zimbabwe, Namíbia ou Moçambique). No corredor entre Europa e África, em vez, o que está em jogo são os países pobres deste último continente. Em vários deles impera a “limpeza” étnica, religiosa ou ideológica, como no Sudão do Sul. Em outros, é a disputa pelo poder que gera lutas fratricidas, como na Nigéria e Chade. Semelhantes conflitos provocam a morte dos que são obrigados a combater, ou a fuga em direção ao norte, às margens do Mediterrâneo. Ali resta esperar pela travessia, sempre custosa, agitada e controlada pelos traficantes de seres humanos. Além disso, grande parte desses países vê-se repetidamente assolada pela seca ou pela inundação, seguida da fome, como a Etiópia, Somália e a Eritreia, por exemplo, no chamado corno da África, e ainda Burkina Faso, Chade, Mali, Senegal. Diante de tais catástrofes, não é difícil entender a fuga em massa, mesmo com o risco de afogamento na travessia.

Fonte: IHU online
Foto: Rosinha Martins, mscs





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