Ataques racistas a venezuelanos em Boa Vista revoltam Scalabrinianas




POR ROSINHA MARTINS

DE SÃO PAULO/ 14.02.2018

 

Dois ataques a venezuelanos em uma semana, na cidade de Boa Vista, Roraima, - e tantos outros não mencionados pela imprensa - tem deixado revoltadas as Irmãs Scalabrinianas, nascidas na Igreja, para defender a vida e a dignidade de pessoas em situação de migração e refúgio.

 

A Superiora Geral da Congregação, Irmã Neusa de Fátima Mariano, residente em Roma, fez ressoar a sua voz para se opor às atitudes racistas mais variadas pelas quais tem passado os venezuelanos no Brasil.

 

"Os ataques racistas contra migrantes venezuelanos em Roraima, exigem atenção especial das instituições e da comunidade internacional. Todas as fronteiras do mundo estão se transformando em um lugar delicado onde em vez de diálogo e acolhida, o ódio inter-étnico se torna padrão”, afirma.

Irmã Neusa enfatiza que a resposta das instituições brasileiras ainda não é suficiente e os medos na comunidade de Roraima, Estado fronteiriço, onde eles pedem ajuda, não tem fundamentos. “Nos últimos meses, muitas famílias venezuelanas estão tentando escapar de uma dura crise política, econômica e humanitária. Precisamos de intervenções coordenadas relacionadas com a integração e análise das maiores vulnerabilidades [...]. ”

A Superiora Geral ressaltou que se faz necessário ouvir e aceitar as exortações continuas do Papa Francisco em relação às pessoas em situação de refúgio. “Não ter medo, abrir-se para o outro, refinando o olhar que me faz vê-lo não como um invasor, mas como pessoa. ”

Instituições, entre elas, o Instituto Migrações e Direitos Humanos – das Scalabrinianas (IMDH), - assinaram uma nota de repúdio às atitudes xenofóbicas pelas quais tem passado os venezuelanos no Brasil. “A omissão do Estado tem fomentado reações negativas na sociedade local, muitas vezes propagando estereótipos, mitos e xenofobia. Os crimes de cunho xenofóbicos ocorridos nessa semana em Boa Vista demonstram de forma tragicamente vívida a nefasta consequência da falta de uma política migratória eficaz e coerente”, diz trecho da nota.

 

Leia a íntegra:

Nota pública de repúdio à xenofobia contra venezuelanas e venezuelanos em Roraima

 

As organizações e pessoas abaixo-assinadas manifestam, por meio dessa nota pública, o mais veemente repúdio à xenofobia e à série de ataques cometidos contra imigrantes venezuelanos em Roraima – Brasil.

 

Na madrugada do último dia 08 de fevereiro, um incêndio intencional feriu três pessoas de uma mesma família venezuelana, incluindo uma criança de 4 anos. O crime se assemelha muito a outro praticado 4 dias antes na capital Boa Vista, onde a intensa migração somada à ausência de ações adequadas do Poder Público colocam em risco a segurança e a dignidade dessas pessoas que procuram no Brasil proteção e acolhida.

 

Nos últimos meses, famílias venezuelanas se viram obrigadas a migrar devido à severa crise política, econômica e humanitária que assola seu país. Além da instabilidade política e violência, a fome e a falta de medicamentos motivam milhares a deixarem seu país natal em busca de sobrevivência. Nessa travessia feita muitas vezes a pé, grande parte é exposta à exploração, discriminação, abusos e outras violações de direitos humanos.

 

A resposta dos entes públicos no Brasil à migração tem sido insuficiente e desarticulada, criando uma atmosfera de desinformação e temor em parte da população em Roraima. A omissão do Estado tem fomentado reações negativas na sociedade local, muitas vezes propagando estereótipos, mitos e xenofobia. Os crimes de cunho xenofóbicos ocorridos nessa semana em Boa Vista demonstram de forma tragicamente vívida a nefasta consequência da falta de uma política migratória eficaz e coerente.


As três instâncias de governo – federal, estadual e municipais – devem atuar de forma coordenada e assumindo suas responsabilidades frente às obrigações constitucionais de proteção da dignidade humana e de acolhida humanitária preconizada na Lei 13.445/2017. Medidas urgentes de acolhimento às famílias em situação de vulnerabilidade, integração local e interiorização não podem mais tardar. Preocupa as entidades e indivíduos que assinam essa nota que medidas de cunho securitário estejam ganhando preponderância no discurso e ações das autoridades. Os venezuelanos e venezuelanas buscaram, no Brasil, proteção e acolhida e as respostas a esse fluxo migratório devem ser pautadas pela promoção e proteção dos direitos humanos.

 

Entidades que assinam:

Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil

Caritas Arquidiocesana de São Paulo

Caritas Brasileira

Caritas Diocesana Roraima

Cátedra para Refugiados da PUC Rio

Cátedra Sérgio Vieira de Mello da UNICAMP

Cátedra Sérgio Vieira de Mello da Universidade Estadual da Paraíba – UEPB

Cátedra Sérgio Vieira de Mello da Universidade Federal de Roraima – UFRR

Cátedra Sergio Vieira de Mello da Universidade Federal do ABC – UFABC

Centro de Apoio ao Migrante – CAMI

Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante – CDHIC

Centro de Migrações e Direitos Humanos

CIMI – Pastoral Indigenista

Coletivo Rede Migração Rio

Comitê Migrações e Deslocamentos da Associação Brasileira de Antropologia – ABA

Compassiva

Comunidade das Irmãs do Imaculado Coração de Maria

Comunidade das Irmãs Ursulinas do Sagrado Coração de Maria

Conectas Direitos Humanos

Conferência dos Religiosos do Brasil – CRB – Núcleo Roraima

Conselho Regional de Psicologia 20ª Região, CRP 20

Diocese de Roraima

Fraternidade Sem Fronteiras

Grupo de Estudo Interdisciplinar – GEIFRON, Universidade Federal de Roraima

Instituto Desenvolvimento e Direitos Humanos

Instituto Igarapé

Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH) - Scalabrinianas

Irmãos Maristas/RR

Irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo – Região Brasil, Manaus – AM

Laboratório de Estudos e Pesquisas em Movimentos Indígenas – LAEPI, Universidade de Brasília

Missão Paz

Movimento Socioambiental Puraké

Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Deslocados Ambientais – NEPDA/UEPB

Núcleo Rosa Luxemburgo

Observatório das Migrações de Santa Catarina – UDESC

Observatório dos Direitos Indígenas

Pastorais Sociais da Diocese de Roraima

Pastoral Carcerária

Pastoral da Crianças

Pastoral Universitária

Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio da Caritas Rio de Janeiro

Rede Eclesial Panamazônica – REPAM

Rede um Grito Pela Vida

Scalabrini International Migration – SIMN

Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Roraima – SESDUF

Serviço Jesuíta para Migrantes e Refugiados

Serviço Pastoral dos Migrantes – SPM

Web Rádio Migrantes Espanhol

 

Pessoas físicas que assinam:

Altiva Barbosa da Silva, coordenadora do Laboratório de Gestão Territorial da Amazônia/LAGETAM e do PIBID/Geografia UFRR/IGEO/Departamento de Geografia Campus do Paricarana

Amarildo Ferreira Júnior, professor e pesquisador – IFRR, NAEA/UFPA, IVIC

Ana Lúcia de Sousa, diretora do Centro de Ciências Humanas CCH/UFRR

Beto Vasconcelos, advogado, ex-presidente do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) e ex-Secretário Nacional de Justiça

Deysiane Oliveira da Silva

Eduardo Faerstein, professor associado, Depto Epidemiologia – Instituto de Medicina Social, UERJ

Elaine Moreira, professora universitária

Estefany Monteiro Lucas Sobrinho, agente de combate às endemias

Flavio Corsini Lirio, diretor do Centro de Educação da UFRR e coordenador do Comitê de Enfrentamento à Violência Sexual

Irmã Luzinete Freitas

João Carlos Jarochinski Silva, coordenador do curso de Relações Internacionais da UFRR

José Carlos Pereira, editor da Revista Travessia

Karoline de Oliveira Dutra Queiroz

Larissa Maria de Almeida Guimarães, Antropóloga do IPHAN/RR e professora substituta do INAN/UFRR

Maria Hebe Camurça Citó

Maria Lúcia da Silva Brito

Mariana Lima da Silva

Mariana Lima da Silva, professora do IFRR

Namis Levino da Silva Filho, cirurgião dentista

Natacha de Souza Costa

Parmênio Camurça Citó, professor da UFRR

Rosana Baeninger, Núcleo de Estudos de População, UNICAMP

Selmar de Souza Almeida Levino, jornalista

Shirley Rodrigues, jornalista

Viviane de Araújo Cardoso





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