Esporte muda a vida do jovem Pipoca, um refugiado do Guiné

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Conde Yacouba, que trabalha na chocolateria Casa do Sabor Amma, ganha chance no futebol de 7 do Corinthians Foto: Tiago Queiroz/Estadão


POR RICARDO MAGATTI

ESTADÃO

Quando Conde Yacouba desembarcou no Brasil em dezembro de 2016 com o sonho de ser jogador de futebol, algo especial estava reservado a ele. A história do garoto que fugiu de Guiné (África Ocidental) devido à perseguição política ganhou um capítulo importante na última terça-feira, quando ele foi campeão da Copa dos Refugiados por Malaika, equipe da Agência da ONU para refugiados (Acnur), e recebeu o convite para integrar o time de futebol de 7, que também é conhecido como society do Corinthians.

 

O convite foi feito pelo técnico da equipe paulista, Almir Souza, que passou mais de um ano observando o garoto. “Ele é diferenciado, tem um passe bom, é rápido. Acho que dá para dar uma lapidada e ser um bom jogador”, disse o treinador ao Estado, enquanto a bola rolava no segundo tempo da partida no Pacaembu e o menino ainda não sabia que seria presenteado com a oportunidade.

 

Inicialmente, Pipoca, como é conhecido, jogará amistosos pelo Corinthians até que sua documentação seja regularizada. Dando certo, ele assinará contrato com validade de um ano e receberá auxílio de custo mensal de R$ 200. O futebol de 7 é jogado em campo society e, dos clubes de maior expressão, além do Corinthians, Santos, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco têm times formados.

 

O garoto gosta de comer pipoca, por isso ganhou o apelido. O reforço do Corinthians é africano, joga no ataque e atuou por Gâmbia na fase inicial da Copa dos Refugiados, mas como sua seleção não chegou à final, foi chamado para compor o time de Malaika, seleção mista que reuniu atletas de oito nacionalidades e que derrotou Angola nos pênaltis depois do empate por 1 a 1 perdurar na etapa regulamentar.

 

O jovem de 19 anos recém-completados passou por intempéries em seus primeiros dias no Brasil. Foi assaltado, morou debaixo de uma ponte e chegou a ser deportado. Nada, porém, que se compare ao que viveu em Guiné, onde sua família, especialmente o pai, recebeu ameaças de morte. “Passei três meses dentro do quarto, com medo do que podiam fazer comigo”, diz o guineense.

 

O pai de Pipoca fazia parte da oposição do governo do pequeno país da África e também teve de deixar sua pátria com medo de morrer.  “Um cara que encontrei assim que cheguei na Praça da Sé foi quem me ajudou em São Paulo. Vi que ele falava francês, assim como eu, e pedi ajuda. Ele me levou a um abrigo”, conta Pipoca, que, depois de um tempo, conseguiu se estabelecer na capital paulista com o auxílio de ONGs e grupos de ajuda humanitária. Recebeu aulas de português, começou a cursar o primeiro ano do ensino médio antes de parar para trabalhar. Hoje, é confeiteiro em uma loja de chocolates na região da Avenida Paulista e mora em um abrigo na Vila Formosa, zona leste da cidade.

 

O menino de Guiné não tem mãe viva e deixou apenas a irmã em sua terra natal. O pai está “escondido” em algum país que nem mesmo ele sabe qual é. “Falo com ele por telefone, mas ele não me conta onde está. Tem medo de estar sendo vigiado. O celular pode estar grampeado.”

 

Segundo dados divulgados pelo Comitê Nacional para Refugiados, (Conare), órgão ligado ao Ministério da Justiça, o Brasil reconheceu, até o fim de 2017, 10.145 refugiados de diversas nações. Pipoca não chegou ao Brasil por causa do futebol, mas porque foi o primeiro visto que conseguiu. “Nunca imaginei que seria tão feliz aqui”.





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