Brasileiros e venezuelanos atuam juntos para melhorar acolhida



POR ALAN  AZEVEDO
DE PACARAIMA - RR


31.12.2019 | Começou cedo. No último sábado (14), enquanto os moradores de Pacaraima (RR) acordavam, um mutirão comunitário na cidade brasileira localizada na fronteira com a Venezuela iniciava a limpeza e reforma da praça esportiva do bairro de Suapi.

Promovido pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), pela associação de moradores do bairro e a prefeitura, o mutirão contou com mais de 150 brasileiros e venezuelanos. Além da limpeza da praça, outras atividades promoveram a convivência pacífica no município que testemunha o impacto do maior fluxo de deslocamento forçado da história recente da América Latina.

Entre os mais interessados no resultado do mutirão estava o time de futebol do bairro de Suapi, o Real Pacaraima, formado por meninas e meninos brasileiros e venezuelanos que treinam quatro dias por semana na praça. “Usamos todo dia, mas a quadra está abandonada. Está cheia de mato, coisa quebrada, não é um local que acolhe as pessoas. Nem iluminação tem. Com essa arrumação, mais gente virá para cá”, conta a estudante brasileira Eduarda Araújo, de quinze anos e moradora do bairro.

 

Membros do ACNUR e moradores do bairro pintam o chão da praça ©ACNUR/Alan Azevedo

 

Foi o que aconteceu. O Mutirão Suapi deu uma nova cara à tão amada e utilizada praça esportiva da comunidade. Rafael Levy, chefe do escritório do ACNUR em Pacaraima, explica a importância da ação. “Pacaraima é primeira cidade brasileira a lidar com a chegada dos venezuelanos. A população local e venezuelana tem poucos espaços públicos para utilizar. Em conversas com a comunidade, identificamos que essa praça é muito utilizada e estava precisando de melhoras”, explica ele.

Rastelagem, pintura, soldagem, manutenção, iluminação, arte urbana e materiais esportivos. O mutirão atravessou o sábado com a presença de pessoas de ambas as nacionalidades, trabalhando juntas pelo bem da comunidade. Com o avanço dos trabalhos à tarde, começaram os campeonatos esportivos de futebol, vôlei e jiu-jitsu – com a entrega de trofeus e medalhas promovida pelo ACNUR – além de apresentação do coral infantil Canarinhos da Amazônia e performances de dança.

 

Pequeno lutador de jiu-jitsu mostra sua medalha ©ACNUR/Alan Azevedo

 

A brasileira e líder comunitária Alexandra Feitosa vive em Suapi há quase vinte anos e tem um quiosque de lanches na praça. “Essa  quadra ajuda muito a convivência entre brasileiros e venezuelanos, pois os dois grupos se encontraram e têm uma comunicação melhor. As pessoas se unem bastante no esporte”, afirma ela, que participa do time de vôlei e sua filha joga futebol.

Sua vizinha, a venezuelana Crisaory Rondon, mora no bairro há oito meses. “As pessoas são muito carinhosas e sempre dão muito carinho aos meus filhos, que jogam juntos aqui”, conta ela, que reconhece as dificuldades de integração entre brasileiros e venezuelanos fora da quadra comunitária.

 

A brasileira Alexandra e suas filhas usam a praça esportiva de Suapi todos os dias ©ACNUR/Alan Azevedo

 

“Acontece de brasileiros e venezuelanos se estranharem nas ruas, no comércio. Mas entre os jogos, eles vão falando, compartilhando opiniões. Isso muda a maneira de pensar para se adaptar a um amigo, não importa a nacionalidade. Aqui, jogam e compartilham juntos. E sem briga. Nunca teve problema aqui”, completa Crisaory.

Não só uma, mas duas – Apostando em espaços públicos para promover a convivência pacífica entre brasileiros e venezuelanos, o ACNUR está apoiando a reforma de uma segunda praça, ainda maior, que fica no centro de Pacaraima. A Praça Thelma Tupinambá, que fica em frente à prefeitura da cidade, também é utilizada diariamente pelos moradores e será entregue à comunidade no dia 20 de dezembro.

 

Time misto de venezuelanos e brasileiros após jogo na quadra reformada. Uma das dificuldades do espaço era a falta de iluminação, que foi providenciada pelo ACNUR ©ACNUR/Alan Azevedo

 

Um dos principais objetivos do projeto é promover uma melhor convivência entre a população refugiada e a comunidade local. Afinal, muitos dos venezuelanos estão de passagem e acabam não se estabelecendo em Pacaraima – mas utilizam os espaços públicos da cidade. Para isso, é preciso apoiar os brasileiros a receber os novos membros da comunidade de maneira digna e pacífica, ajudando sua integração de maneira mutuamente benéfica não apenas economicamente, mas social e culturalmente.

“Essa união que está revitalizando essas duas praças é para mostrar a força de uma comunidade mais coesa, que trabalha por um mesmo motivo comum. E mostrar que juntos, os brasileiros e venezuelanos, assim como as instituições e organizações que trabalham nessa situação humanitária, podem construir uma cidade melhor”, conclui o chefe do escritório do ACNUR em Pacaraima.





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